Título para que? Sou eu...

Sou eu, exposto aqui.

Um bom tanto de mim quer explodir. Ao invés de permitir o desperdício dos meus espasmos de criação inútil, prefiro deixá-los por aqui, para quem quiser me conhecer. Também é uma forma excelente de tentar organizar um pouco meus pensamentos, tão confusos.

Será melhor ainda se vocês puderem me criticar, e muito: pois só assim cresço.

Conto, então, com a ajuda de todos.

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Local: Porto Alegre, RS, Brazil

quarta-feira, setembro 22, 2004

    É horrível quando descobrimos a maldade, e que ela existe. Depois, é horrível quando a vemos, quando a sentimos. É horrível e degradante senti-la. Mas o mais horrível é ter que aceitar a certeza de conviver com ela até o fim dos tempos.

    Muitas vezes me faz torcer para que ele não esteja longe.

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    Quando o vi a primeira vez, estava em cima do palco, atrás das cortinas. Abriu uma fresta, espiou, me chamou. O rosto não bem me lembro, tampouco qualquer outro detalhe. Assim que cheguei perto, sua mão convidou a minha, tocou-a, pegou-a, puxou-a. Fui tragado para o outro lado.

    Quanto mais lindo o espetáculo, maior a confusão nos bastidores. Porém não vi confusão: não havia espetáculo. Não havia nada, apesar de tudo estar lá. Tudo. Coloquei a mão, fui puxado e ele tomou conta de mim. Entrou pela minha garganta, engasguei com ele e o absorvi. Sinto sua dor circulando pelas minhas veias.

    Será que fui traído? Acho que não. Já dizem: cuidado com o que desejas, porque pode ser que se realize. A mim foi por ele oferecido tudo o que pudesse querer. Tudo. Tudo o que não fosse material, tudo que não fosse real. Me tornei maior que tudo, ao tentar absorver tudo - e consegui sorver tudo o que tentei.

    E o que era tudo não era nada. A chuva começou e o espetáculo que não existia se acabou. Era impossível olhar para o céu porque os pingos machucavam os olhos. A força da água me prostrou. Caí. Fui obrigado a olhar para o chão e de mim não escorria água, mas sangue.

    Eu não sangrava, mas a chuva que caía me lavava por dentro. Me levava. Levava tudo o que a mim tinha sido oferecido com raiva por aqueles que de mim tem controle, e ninguém o tem! Foram tomadas de mim todas as verdades que eu sempre quis saber, que eu sempre soube e não sabia que as conhecia, que eu quis tanto ouvir mas não queria escutar, que foram injetadas em mim com dor e arrancadas de mim sem perdão.

    Agora rastejo pelo asfalto sujo, imundo; enquanto a chuva termina de levar embora minhas entranhas. Ainda tento tocar o sangue aguado que escorre em volta. Tenho saudades de mim. Não há mais como olhar para o céu enquanto a tempestade não passar, e se o sol vier me queimará. Não há o que fazer enquanto aquele monstro imundo ri de mim, por detrás das cortinas, de dentro de mim, levado pela chuva.