Título para que? Sou eu...

Sou eu, exposto aqui.

Um bom tanto de mim quer explodir. Ao invés de permitir o desperdício dos meus espasmos de criação inútil, prefiro deixá-los por aqui, para quem quiser me conhecer. Também é uma forma excelente de tentar organizar um pouco meus pensamentos, tão confusos.

Será melhor ainda se vocês puderem me criticar, e muito: pois só assim cresço.

Conto, então, com a ajuda de todos.

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quarta-feira, outubro 13, 2004

Suspiros

    A Dalva já tinha aparecido, meio borrada, quando chegava nas casa. Caía uma chuva fina, ventava, mas tava abrindo pros lado da cidade. Era o que parecia.

    Vinha de rédea solta, tomando água no olho vez que otra. Nem tava: queixo caído, os pensamento lá no longe. Apeou e deixou o cavalo de porta ali mesmo. Era pingo de rédea no chão, alguém que se virasse dele. O que era pra estar feito, tava feito.

    Foi se livrando dos apetrecho no caminho, tava de saco cheio daquilo tudo. O tirador já ficou no galpão, jogado. O pala pouco antes da varanda, pegando chuva. Na porta, já lhe esperava as alpargata, ao que se livrou das botas. Entrou e tirou o chapéu, como de costume.

    Deixou um rastro d´água por onde passava, mas não passou em muita coisa. Foi direto pros fundo da casa, de mão na cuia. Água na chaleira e o amargo da vida na cabeça. Olhou o fogo de canto feito pela índia, e se chegou numa cadeira de lado.

    Bateu o palheiro, acendeu. Paz.

    O frio vinha chegando. Trabalho feito, o gado na invernada. Até quero-quero tava quieto, nem mosca se mexia. Paz.

    O quietume da vida lhe incomodava. Da porta aberta via o pago acinzentado pela chuva, e isso lhe doía os olhos.

    Sentia falta dos seus, pois só neles sabia quem era.

    Não tem taura que não chore quando lembra de quem lhe faz. Se não, o froxo tá morto e não sabe - malvadeza tem hora e lugar, o dele é no inferno.

    O cusco entrou, encharcado. Até o guaipeca tava com olhar triste - e não tem vivente que não saiba que isso não acontece. O mundo tava abichornado. E azar o da casa.

    Só tinha na cabeça fogo, mate e cordeiro. E paz.

    Entendeu o que significava dever cumprido. Suspirou e sentiu falta da vida. Atirado na cadeira, botou os pés por cima da banqueta e roncou o mate. Nem grito do galpão, a peonada se aquietava com a chuva.

    Só o assovio do vento, que lhe contava histórias daquelas paragens. Lhe contava sua própria história, sempre de um jeito diferente.

    O fogo já tava em brasa quando resolveu fazer a reza. Não viu o tempo passar; só pôde olhar para cima, e já entregou a alma ao Patrão-velho.


E tudo naquela maldita paz...