Título para que? Sou eu...

Sou eu, exposto aqui.

Um bom tanto de mim quer explodir. Ao invés de permitir o desperdício dos meus espasmos de criação inútil, prefiro deixá-los por aqui, para quem quiser me conhecer. Também é uma forma excelente de tentar organizar um pouco meus pensamentos, tão confusos.

Será melhor ainda se vocês puderem me criticar, e muito: pois só assim cresço.

Conto, então, com a ajuda de todos.

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sexta-feira, dezembro 10, 2004

"A" prova

    Ainda quando pequeno, sonhava com aquele objetivo. Antes de dormir, já sonhava acordado com tudo o que faria quando atingisse o que almejava - já via sua cara de feliz, de completo, de realizado. Ainda que criança, já sabia o poder de uma meta, de um plano de vida... e já sentia em seu coraçãozinho toda a satisfação de se sentir pleno.

    Os anos que se seguiram foram de aprendizado. Tentativa e erro, falhas. Mais falhas que tentativas, se isso é possível: errava até quando sequer queria tentar. Quando tentava, então, era um desastre. Não tinha o equilíbrio, a sensatez. Não tinha a calma, a paciência que só os anos lhe dariam.

    Ainda no início da adolescência, se destacou dos demais. O despertar precoce lhe trouxe em idade ainda pueril a maturidade que lhe era necessária. Já não corria à toa, mas caminhava a passos firmes em direção dos seus objetivos. Já não tinha os olhos distraídos dos imaturos, mas o semblante sério e o olhar semicerrado fitando o horizonte. Sim, ele sabia o que queria, e sabia como chegar lá. Era só uma questão de caminhar. A passos firmes.

    Os erros de quem já obtém as habilidades necessárias são mais raros. Nota-se uma evolução entre uma e outra falha, em oposição aos desastres do desenvolvimento inicial. Aquele garoto levava aquilo a sério demais, e tudo tem um preço. Enquanto os erros são menos frequentes, doem mais. As quedas são mais rápidas, os saltos mais altos, os impactos são mais severos. Até alma é penalizada com dor, a cada distração. Sua-se sangue, chora-se sangue. Em contrapartida, se obtém um olhar de sangue, digno dos líderes.

    Mas nada mais importava: sua vida era aquilo. Sabia que um dia lhe seria exigido que dominasse perfeitamente o que se dispunha a fazer, a alcançar. Aos poucos, já sabia que não bastava o viver aquela realidade, o observar era tudo. Observar a si, seus erros, seus acertos, sua evolução. Observar o comportamento dos outros, e da crítica deles, crescer. Já sabia onde queria chegar, sonhara com o sucesso. Agora, era só uma questão de caminhar. A passos firmes.

    No início, nada lhe tirava a concentração. Aos poucos, a vida foi chamando. Aí está a mais terrível injustiça: viver é necessário. Sim, viver é um imenso desperdício de vida, porque distrai do que se quer que seja vivido. Precisava já pensar em outras coisas, precisava já sobreviver, e não apenas viver como imaginara.

    Se apaixonou. Por algumas pessoas, por muitas atividades, por vários lugares. Era inevitável. A paixão, antes sua companheira de sonhos despertos, sua alcova para os desejos mais duradouros, era agora sua inimiga. A necessidade de sobreviver tirou-lhe a vida. Mas seguia lutando. Ainda moço, sabia que o caminho do sucesso estava na luta. Por trás de cada vitória, havia galões de suor e lágrimas. E de sangue nos olhos.

    Sem notar, havia se distanciado do seu objetivo. Já tinha muitos deles, muitas metas, várias preferências. Quem escolhe uma vida abre mão de todas as outras, já disseram por aí. Já não podia mais dar preferência absoluta ao seu grande sonho e, quando viu, ele era mais um desejo entre tantos. Talvez até tivesse suado tanto por ele que se tornou um peso - não queria mais saber daquilo. Sabia que, se seguisse caminhando, passos firmes, chegaria lá; mas lá onde? E todo o resto? Titubear é o primeiro passo para o fracasso. E talvez o maior deles.

    Um estalar de dedos lhe tirou do transe. Do transe chamado 'existência'. Olhou em volta... tudo tão igual! Mas... qual era o futuro mesmo? E, afinal, por quê? Ah, titubear.

    Se deu conta. Nossa, como pôde ter esquecido de tudo o que sonhara na infância? Do investimento de toda sua adolescência, de toda sua vida jovem? De toda sua vida, diabos! Como?

    "É agora", lhe disseram. "Ahn?"

    Era naquela hora. Sim ou não, tudo ou nada. "Mas o que mesmo?"

    Titubeou, e os demônios riram-se dele.

    "Estou fora de forma, não tenho tido tempo! Não sei mais!"

    Mas aquele desejo infantil tão maduro lhe perseguia. Percebeu que sua vida só seria completa se atingisse o objetivo traçado ainda quando criança. Só assim sua existência faria sentido, afinal! Sentia-se um privilegiado: enquanto tantos bradam nos lodos humanos, ele sabia: aquilo era sua vida. Fôra gerado para esse fim. E lá estava. Despreparado, mas de peito aberto.

    Ah, mas titubeara. Os motivos? Não importam. É o primeiro passo para o fracasso, se não o maior deles.

    Na hora da verdade, o destino lhe foi implacável. Era verdade: estava fora de forma. Já havia tempo não se estudava, não estudava seus movimentos com o cuidado de antes. Tinha se perdido e, na ânsia de ser humano, falhou. Titubeara, e seus anjos, a partir desse dia, choraram.

    Chance, só uma. Se treina a vida toda para quando a grande chance chegar. Muitos povos já pregaram: "esteja pronto para quando a chance passar por você, eis o segredo". Já o gaudério bem diz: "cavalo encilhado não passa duas vezes". A sorte do guapo é que já nasce ginetaço, mas e se não?

    Aí cairia em desgraça. O próprio ditado seria uma grande e cômica desgraça. Uma piada com o pobre humano, que é tão-somente tanto quanto.

    E o que fazer quando se vê o rabo do cavalo em meio ao pó? Não sei. Se eu tivesse essa resposta, aí sim eu teria encerrado os dramas humanos. Mas quem sou eu para querer tanto?

    Fato é que a vida perde sentido. Objetivos verdadeiros se busca ainda no berço, depois é tarde demais: não se desenvolve as habilidades necessárias. Há uma imensidão de pseudo-músicos e atletas-de-fim-de-semana para provar isso. Triste, deprimente. Verdade, mas há outra forma de classificar as vidas de quem perdeu sua chance?

    Se antes queria sobreviver, agora encare: sobreviva. Isso é o que resta. Isso, ou esperar a próxima chance, na próxima vida. Para quem acredita, é o que mantém a chama...