Título para que? Sou eu...

Sou eu, exposto aqui.

Um bom tanto de mim quer explodir. Ao invés de permitir o desperdício dos meus espasmos de criação inútil, prefiro deixá-los por aqui, para quem quiser me conhecer. Também é uma forma excelente de tentar organizar um pouco meus pensamentos, tão confusos.

Será melhor ainda se vocês puderem me criticar, e muito: pois só assim cresço.

Conto, então, com a ajuda de todos.

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Local: Porto Alegre, RS, Brazil

sábado, fevereiro 26, 2005

Decisões

    O som dos passos na calçada molhada lhe incomodava. Era um andar lento, e o solado de couro sobre a água que escorria começava a encharcar-se. O sobretudo de lã, com a gola levada a proteger-lhe o pescoço, pesava. Via poucos metros à frente, graças à aba do chapéu de feltro, de onde escorria um maldito fio d´água, direto ao seu nariz – e os seus ossos começavam a enrijecer-se.

    Os passos eram lentos e firmes. Mão nos bolsos, a concentração não lhe faltava: todo o espetáculo que lhe trazia desconforto levava ao clima desejado. A fúria que vinha sorrateira tinha um objetivo definido, e não seria com o prefeito a deixar as calçadas enlameadas que iria descarregá-la.

    Chegando no local desejado, pôs-se a olhar em volta. A situação era perfeita, o mundo parecia conspirar para que seu plano desse certo. A tensão dos seus músculos era a ideal, o sangue nos olhos não mais que o necessário para dar o passo à frente. A água gelada que se enfiltrava por suas grossas roupas e corria pelo seu corpo espantara da rua todos os passantes. Só restava ele.

    Avistou, no lugar de costume, a viatura da polícia. Apertou os olhos, esfregou-os, mas a chuva não lhe deixava ter certeza. Por alguns momentos, fitou aquele carro parado embaixo da marquise, procurando mentalizar o que sucederia. Já tinha certeza: havia apenas um guarda à vista.

    Desabotoou lentamente o casaco, passou a mão pesada lentamente pela barriga, até achar seu coldre, ao lado esquerdo do peito. O metal frio nos dedos lhe causou um calafrio na espinha, como nunca antes sentira. Era a hora, era chegado o momento da verdade.

    Ele sabia que sim, mas seu corpo não queria. As imagens de seu pai lhe chamando de covarde torturavam sua cabeça. Ora lhe traziam medo, ora lhe davam a raiva necessária para prosseguir. Aquela pistola começou a se fazer pesada e, mesmo com a mão trêmula e insegura, procurou envolver o cabo e sacar a arma.

    Tinha em sua mão a pesada 9mm de seu pai, praça na II Guerra, herdada por sua morte. Desde pequeno aprendera a atirar, a manuseá-la, e passou a infância ouvindo: “isto é um artefato com uma finalidade bem definida: matar”. Com uma calma incomum – pensava ter todo o tempo do mundo -, conferiu se estava municiada. Uma tristeza profunda lhe frouxava as pernas, enquanto um pequeno sorriso de ternura se formava em sua face.

    Carregou a arma. Sentia sua alma leve e seu corpo pesado. Suas mãos tremiam, e o barulho de metal que vinha da pistola lhe deixava ainda mais nervoso. Não tinha pressa, contudo: toda a sua vida estava naquele momento.

    Cercado pela situação, ouviu uma voz, ao fundo, lhe fazer alguma pergunta. Em seguida, ouviu-a ordenar-lhe que largasse a relíquia que tinha nas mãos. Chegou a sorrir, como se lhe fora uma piada sem graça. Ouviu o sino da igreja de uma pequena cidade distante ecoar, e sabia que era chegada a hora – já esperava aquele momento.

    Tinha os ombros prostrados, uma postura de melancolia apática. Respirou fundo. Nenhum ar que conseguia obter parecia ser suficiente para passar-lhe o frio na espinha. Fitava o instrumento que levava à mão, enquanto do cano escorria água. Enquanto a chuva lhe lavava a alma. Em um profundo suspiro, se despediu.

    Maldita raiva que lhe fugira, só fazia tremer. Não lhe restava outra alternativa, ou a teria escolhido! Voltou a erguer os olhos, e notou que só havia os dois naquela rua: ele, e o jovem policial que lhe questionava com o olhar, a mão no coldre e uma expressão de pânico. O remorso já lhe tinha tomado, mas não havia jeito: ergueu a arma lentamente, enquanto ouvia as ameaças torpes do seu oponente. Quando terminou de fazer a mira, o garoto lá lhe apontava o pequeno .32, segurando-o com as duas mãos inquietas. Não podia ver qual dos dois era mais patético, ou estava mais apavorado ou nervoso, e já não lhe importava, pois estava feito.

    A paz de dever cumprido lhe tomou a alma, o suspiro mais profundo que já dera na vida lhe lavou as mágoas. Sem seus erros, a vida não lhe sobrava, e sua efêmera existência já se fazia triste. Só aguardava o último aviso, que lhe demorou minutos, quem sabe horas, para que fosse dado. Até que o policial puxou o gatilho.

    Já tinha os olhos fechados, esperava o impacto, feliz com deus. O som da chuva lhe era a melhor música que já ouvira. Tinha na face satisfação, e, nos lábios, um sorriso. O tempo seguia passando, aquele imenso relógio distante não parava de se mover. Abriu os olhos e viu o policial, sem saber como reagir, puxando novamente o gatilho. Mas a pólvora ensopada se negava a disparar.

    Inundado por uma profunda decepção com o destino, levou o cano da pistola à cabeça. Novamente ergueu o queixo, fechou levemente os olhos, estufou o peito. Mas nenhum ar era suficiente para lhe trazer a vida de volta. Ouvia de longe as súplicas de quem agora era seu colega, abafadas pelo som da água despencando por todos os lados, lhe cercando naquele mundo que criara. Sua alma já estava lavada, mas aquela que veio para lhe trazer redenção lhe traíra.

    Caiu de joelhos, jogou a arma ao chão, pôs-se a chorar. Queria ter usado a herança de seu pai para alguma finalidade que o velho quisera, mas não tinha coragem para fazer por si mesmo. Voltou a ver as imagens, e se deu conta de que aquele desgraçado sempre teve razão. E, agora, não lhe dava outra escolha, senão aguardar que a vida escoasse.